segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O porquê deste nome

Crónica dos Bons Malandros

"Quem é?..."
Ficaram de olhos espetados na porta como se pudessem ver quem estava do outro lado. A campainha tocara por quatro vezes, apressada e suplicante, suspendendo as conversas, o bate-bate dos talheres, até as mandíbulas inertes a meia viagem da mastigação.
"Quem é?..."
"Sou eu, o Silvino!"
Era uma voz miada, fininha, um sussurro que encheu a sala, um grito segredado.
Os outros respiraram, num primeiro alívio, mas ainda na retranca: bom, era o Silvino, vá lá, ma vinha tarde e trazia fogo no rabo. Em passos de sombra, silencioso e profissional, Renato chegou-se à porta, abriu-a numa brusquidão sem aviso, e o solicitante, encostado por fora, derramou-se ao comprido no soalho de cera da sala de jantar.
"Onde estives? Que andaste a fazer?"
O grupo fitava-o numa mudez inimiga. "Peço desculpa de chegar tarde...", requereu, mas sabia que as coisas não ficavam assim, iam chateá-lo, armar-se em tribunal, ele a gramar o interrogatório e as fúrias temíveis de Renato, Renato, o Pacífico, chefe do bando, amigo do coração, mas juiz sem dó em assuntos de serviço .
Recostado e gordo, Flávio, o Doutor, fez então uma coisa rara: falou. Quando se dava a ser tão espaçado incómodo, a assembleia apurava o ouvido, sempre o mínimo de palavras para colocar a questão certa e urgente.
"Vinha alguém atrás de ti..."
Era isso, caramba: Silvino não tocara a campainha, gritara por socorro com a ponta do dedo assustado. Ah grande animal, atraso de vida, filho de uma cabra, sabe-se lá que perigos trazia nos calcanhares, guiando a perdição ao encontro de Renato, o Pacífico, e de seus parceiros de aventuras e medos, Pedro Justiceiro, Flávio, o Doutor, Adelaide Magrinha, Arnaldo Figurante e Marlene, conhecida na praça por Marlene do Renato.

Mário Zambujal

Fonte: ZAMBUJAL, Mário, Crónicas dos Bons Malandros. Lisboa, Bertrand, 1982.

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